Alimentos ultraprocessados x in natura
- INTRODUÇÃO
A alimentação enquanto direito humano desempenha um papel fundamental para a manutenção da saúde e da qualidade de vida da população. Essa importância perpassa a visão simplista de apenas fornecer energia, sendo reconhecida, na verdade, como um dos pilares para a realização das funções vitais do corpo e para a prevenção e auxílio no tratamento de doenças.
Escolher os tipos de alimentos que se consome impacta diretamente na qualidade de vida e o critério para essa escolha deve considerar os diferentes tipos de alimentos disponíveis, suas origens e, sobretudo, como o processamento pode alterar suas propriedades nutricionais e seus efeitos no organismo.
Tendo em vista que a alimentação é o principal meio de conseguir os nutrientes necessários para o funcionamento do corpo humano, é de extrema importância o entendimento correto das características a respeito desse assunto.
Nesse sentido, o objetivo inicial dessa pesquisa é diferenciar os alimentos a partir de seu grau de processamento – em alimentos in natura e alimentos ultraprocessados – e dissertar sobre suas particularidades e, sobretudo, o seu impacto na saúde, na nutrição e na condição socioeconômica da população como um todo. (Fundação Estatal de Saúde de Niterói, 2020)
Palavras-chaves: ultraprocessados, in natura, nutrição, consumo de alimentos
- DESENVOLVIMENTO
- O que são os alimentos ultraprocessados?
Os alimentos advindos de transformações na indústria são produtos que contém modificações em suas estruturas químicas originais e acréscimos de substâncias que podem ser potencialmente nocivas à saúde, o que torna menor o valor nutricional associado a esses tipos de alimentos quando comparados aos alimentos in natura.
Os alimentos industrializados podem receber classificações de acordo com o seu grau de processamento e a tecnologia aplicada em sua produção. O Guia Alimentar para a População Brasileira propõe essa divisão em três níveis, sendo eles: alimentos minimamente processados, alimentos processados e alimentos ultraprocessados. (FeSaúde, 2020).
O primeiro, se refere aos alimentos que foram submetidos a alterações mínimas na indústria, como etapas de limpeza, seleção, descascamento e processos de aquecimento, entre outros, sem que ocorra a adição de outros ingredientes ou adjuvantes tecnológicos, o que faz com que esse nível seja considerado o mais saudável dentro do grupo dos alimentos industrializados; já o nível dos alimentos processados corresponde àqueles que são adicionados de outros ingredientes e/ou adjuvantes tecnológicos com o intuito de melhorar o aspecto comercial, como maior durabilidade e características sensoriais mais atrativas. Recomenda-se o consumo desses alimentos em pequenas quantidades e com moderação
Por fim, o terceiro nível corresponde aos alimentos ultraprocessados, os quais apresentam formulação industrial, com presença de diversos tipos de aditivos e outros ingredientes que podem estar relacionados com desfechos negativos à saúde. De acordo com o Ministério da Saúde do Brasil, estes devem ser evitados. (Ministério da Saúde, Saúde Brasil)
- O que são os alimentos in natura?
Os alimentos in natura são aqueles obtidos diretamente de fontes vegetais ou animais, mantendo-se em seu estado natural, sem passarem por qualquer modificação industrial. Por não sofrerem intervenções químicas ou adição de conservantes, esses alimentos são amplamente reconhecidos como os mais saudáveis dentro da diversidade alimentar, preservando suas propriedades nutricionais e sendo recomendados para uma dieta equilibrada.
Embora muitas vezes a sociedade equipare alimentos in natura a alimentos orgânicos, essa associação nem sempre é precisa. Alimentos in natura referem-se apenas ao estado natural do alimento, sem considerar o método de cultivo ou criação. Já os alimentos orgânicos, além de serem naturais, são produzidos sem o uso de agrotóxicos, transgênicos ou fertilizantes químicos, garantindo um produto final livre de resíduos tóxicos. Em resumo, enquanto todo alimento orgânico é in natura, nem todo alimento in natura pode ser considerado orgânico. Essa distinção é crucial para consumidores que buscam não apenas a naturalidade dos alimentos, mas também práticas agrícolas sustentáveis e seguras, reforçando a importância de uma escolha consciente e informada. (Santos G. L.; Torquato Y. B.; Nahas P. C. . 2022, 26 de Setembro)
- O parâmetro econômico.
O Brasil é um país de economia baseada majoritariamente em commodities, que são mercadorias do setor primário. Contudo, mesmo com esse cenário agropecuário, na última década houve um afastamento do consumo desses alimentos, os quais sofreram uma substituição por refeições advindas de ultraprocessados. Esse fato ocorreu devido ao âmbito monetário, observando-se a mudança dos preços das comidas naturais, que obtiveram um acréscimo muito superior em comparação aos industrializados.
Somado a isso, a população brasileira está vivenciando um aumento do desemprego devido a uma crise financeira duradoura, portanto há uma procura por corte de despesas, como a de certos produtos do mercado, principalmente quando existem outras opções semelhantes que podem ser encontradas em valores inferiores. (Vilarino, C. 2021, 20 de Abril)
As grandes empresas já analisaram a modificação do cotidiano dos cidadãos, elevando as variedades e os lançamentos de mais alimentos para suprir, em baixo valor, essa demanda para os consumidores, levando em consideração seu inferior custo de fabricação, dado ao seu baixo valor nutricional. Além disso, os grandes latifundiários também mudaram suas produções, utilizando um maior número de agrotóxicos com a finalidade de aumentar a quantidade a ser vendida, não se importando com as condições do produto para a saúde da sociedade, somado a isso, há uma comercialização deste com uma qualidade superior e em uma escala mais barata para a exportação, dado ao pagamento efetuado em moedas estrangeiras, indiretamente deixando para a sua própria população alimentos que são inferiores aos distribuídos para outros países.
De uma vertente discordante, os proprietários com pequenas dimensões comercializam para menores escalas sofrendo cada dia mais com sua pouca oportunidade no mercado, tendo em vista que suas comidas são muitas vezes orgânicas, já que não possuem grandes investimentos econômicos em suas terras, sendo muito caras para a venda maneira comparativa com os grandes proprietários de terras.
Nesse sentido, é viável associar os produtos alimentícios do mercado financeiro brasileiro, como ocorreu no trecho do coordenador do Índice de Preços ao Consumidor calculado pela FGV, André Braz: “Quando a gente olha os índices de preços, a carne de frango, a carne congelada, o ovo, essas fontes de proteínas primárias subiram muito de preço. Já para os ultraprocessados, como nuggets e hambúrguer, essa a variação de preços foi bem menor”. (Vilarino, C. 2021, 20 de Abril)
- O âmbito social.
Nessa última década, a sociedade está vivenciando mudanças nos eixos econômicos e sociais, principalmente ao analisar as transformações advindas da pandemia, gerando uma elevação do empobrecimento e uma precariedade da qualidade de vida.
Diante disso, observa-se que as trocas do consumo de alimentos in natura por ultraprocessados possui ligação com os problemas monetários, logo ao contemplar o custo de produção desses dois tipos de alimentos percebemos como os industrializados por utilizarem substâncias de qualidade inferior apresentam menores gastos do que os produtos naturais, que demandam maiores investimentos, e cada vez mais se forem alimentos orgânicos. Contudo, ao serem comercializados para o mercado seus valores dispõem diferenças significativas ao bolso dos consumidores, fazendo com que os brasileiros escolham por comprar o mais barato, sem dar relevância aos dados nutricionais distintos desses produtos.
Com a volta do Brasil ao mapa da fome em virtude da crise financeira e empregatícia no país, e a escassez de políticas de auxílio eficazes a essas pessoas carentes, pode-se concluir que houve um aumento da insegurança alimentar dos cidadãos, provocando problemas no âmbito da saúde coletiva. (Abramovay, R. 2024)
Além disso, com o sistema capitalista emergindo a cada dia com mais força, acentuou-se a aceleração do tempo, ou seja, uma política de incentivo ao gasto das horas dos trabalhadores com maior praticabilidade e utilidade empresarial. Nesse contexto, as pessoas têm vivenciado gradualmente mais seus empregos, tendo dificuldade em estabelecer limites de carga horária e de local do trabalho, já que trazem questões do escritório para serem resolvidas ou adiantadas em suas moradias.
Com isso, houve a elevação do consumo de comida processada, tendo em vista suas facilidades de preparos e menores gastos de tempo, porém esse alimento industrializado não contêm a quantidade necessária de nutrientes aos quais o corpo humano precisa, somaticamente também em o fato do uso de substâncias nocivas à saúde, como conservantes, em grandes quantidades desses produtos semiprontos congeladas.
Nos países considerados de primeiro mundo, como os Estados Unidos, há um forte consumo de alimentos ultraprocessados, dado essa questão da praticidade e da variedade que tais produtos proporcionais, nesse sentido, consecutivamente, têm uns grandes números de pessoas obesas e com problemas de colesterol, o que é mostrado como consequência da ingestão das comidas industrializadas. Esse cenário está se tornando comum nos países em desenvolvimentos também, por exemplo no da América Latina, onde os países que tinham como seu consumo focado em commodities encontram-se comercializando uma quantidade de produtos ultraprocessados, que desenvolvem uma ampliação gradativa crescente nos últimos anos. (Abramovay, R. 2024)
- A visão nutricional dos alimentos.
Com os avanços tecnológicos, a indústria alimentícia desenvolveu uma variedade de produtos derivados de ingredientes base, como exemplificado pela batata, esse alimento pode ser encontrado em diferentes categorias alimentares, as quais apresentam diferenças substanciais em seus componentes devido suas fabricações, por exemplo pode ser encontrada em forma natural e processada, na batata frita semipronta. Nessas duas categorias há vários componentes, que se modificam para cada comida, já que os industrializados possuem o armazenamento e a validade sem ser igual aos in natura. A industrialização altera características essenciais, como o armazenamento e o prazo de validade dos produtos, em comparação com os alimentos in natura. Essa modificação é um reflexo das necessidades e condições específicas dos produtos industrializados. As batatas fritas congeladas, geralmente, contêm óleos menos saudáveis, potencializadores de sabores e aditivos aromatizantes e de auxílio na diminuição da espuma na fritura. Em contrapartida as batatas naturais, se forem orgânicas serão totalmente saudáveis, se não podem conter agrotóxicos e transgênicos, mas ainda assim serão menos prejudiciais do que as industrializadas. (Renner, E. 2012)
Os hábitos alimentares dos indivíduos evoluem em consonância com os avanços da sociedade. Durante a infância, especialmente no período de lactação, existem restrições alimentares que são adaptadas com base nas descobertas anatômicas e no contexto social das famílias. Atualmente, observa-se uma tendência de redução do período de amamentação, com a introdução precoce de suplementos alimentares e alimentos sólidos na dieta dos lactentes. Esta mudança é impulsionada, em parte, pela necessidade das mães de retornarem ao ambiente de trabalho, o que resulta em ajustes nas práticas alimentares desde os primeiros meses de vida.
A crescente exposição de crianças e adolescentes a alimentos industrializados pode ser atribuída a diversos fatores, incluindo a comercialização desses produtos em ambientes escolares, a conveniência no transporte e a redução do tempo gasto pelos responsáveis na preparação dos lanches. Além disso, a curiosidade característica da infância desempenha um papel significativo, já que a presença de colegas consumindo determinados alimentos pode instigar o desejo de experimentação. Os produtos ultraprocessados, com seus sabores intensificados, tendem a atrair mais facilmente as preferências das crianças em comparação com os alimentos naturais.
Assim, quantos desses cidadãos chegam na fase adulta e idosa já estão com esse hábito alimentar integrado a eles, sofrendo dificuldades para irem contrários às comidas ultraprocessadas consumidas durante suas outras fases da vida e ainda ingeridas em seu ciclo social. (Gomes, D. R., Santos Neto, E. T. dos, Oliveira, D. S. de, & Salaroli, L. B., 2023)
Diante disso, nota-se que os indivíduos não fazem suas refeições de maneira correta, seguindo a necessidade nutricional de cada período da vida. Esse fato gera muitas complicações na saúde da população, dentre elas estão as doenças, como a obesidade, diabetes e carência de nutrientes. De forma comparativa, outras doenças como o câncer e as cardiovasculares tem ocasionados mais mortes do que a fome, então a justificativa usada pelo agronegócio e as multinacionais, de que os produtos ultraprocessados e com agrotóxicos auxiliam no alimentação e saúde do mundo, percebe se que é uma conclusão errônea. (BRASIL. Ministério da Saúde. 2022)
Acrescenta-se também que o meio ambiente é prejudicado com esse alto consumo de alimentos ultraprocessados, tendo em vista que a produção desses insumos afeta diretamente nos números de pegadas de carbono e hídricas no Brasil. Somado a isso, tem a questão de suas embalagens serem majoritariamente não biodegradáveis, aumentando a produção de lixo e a poluição, por causa do descarte errado de recipientes. Também há a problemática do transporte com seu grande gasto de energia e emissão de poluentes. Por fim, entende-se que os alimentos industriais afetam amplamente o mundo. (Nupens/USP e a Cátedra Josué de Castro, 2021)
- CONCLUSÃO
No desenvolvimento deste projeto, propõe-se uma análise comparativa entre produtos ultraprocessados e alimentos in natura. Com base nos dados apresentados, evidencia-se os malefícios associados aos alimentos industrializados e suas consequências para a saúde dos consumidores, com o objetivo de promover a conscientização sobre os impactos dessas opções alimentares. Constatou-se também que o aumento da comercialização de produtos processados se deve à sua fabricação em larga escala, que reduz os custos, e à sua maior praticidade em comparação com os alimentos naturais.
Além disso, observam-se as implicações negativas relacionadas ao consumo excessivo e prolongado de alimentos ultraprocessados, como o aumento dos níveis de colesterol e açúcar no sangue, deficiências vitamínicas e a falta de nutrientes essenciais para o funcionamento adequado do corpo humano. Adicionalmente, os problemas ambientais associados à produção desses alimentos, como a contaminação da água e do ar, e o aumento do desmatamento e da poluição, são evidentes.
Dessa forma, destaca-se a necessidade de intensificar a disseminação de informações sobre alimentos e seus valores nutricionais, dado que uma parcela significativa da sociedade não está ciente dos riscos associados ao consumo indiscriminado desses produtos. Em síntese, enfatiza-se a importância de substituir alimentos ultraprocessados por opções in natura, preferencialmente orgânicas, considerando também as questões econômicas e sociais envolvidas nessa transição. Para isso, é fundamental promover mudanças que favoreçam o desenvolvimento de uma alimentação saudável (BRASIL, Ministério da Saúde, 2022).
- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Fundação Estatal de Saúde de Niterói (FeSaúde) Niterói. In natura, processados, ultraprocessados: conheça os tipos de alimentos, 2020. https://www.fesaude.niteroi.rj.gov.br/sua-saude/in-natura-processados-ultraprocessados-conheca-os-tipos-de-alimentos
- Ministério da Saúde. Saúde Brasil. Site: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/
- Santos G. L.; Torquato Y. B.; Nahas P.C. . Produtos In Natura e Industrializados: efeitos à saúde humana. Universitário UNA, Catalão/Goiás, Brasil. 2022, 26 de Setembro.
- Vilarino, C.. Aumento da pobreza impulsiona consumo de alimentos ultraprocessados. Revista Globo Rural; Globo Rural. 2021, 20 de Abril. https://globorural.globo.com/Noticias/Economia/noticia/2021/04/aumento-da-pobreza impulsiona-consumo-de-alimentos-ultraprocessados.html
- Abramovay, R. Fórum Econômico Mundial acende alerta vermelho contra os alimentos ultraprocessados. Jornal da USP. 2024, 17 de Janeiro. https://jornal.usp.br/radio-usp/forum-economico-mundial-acende-alerta-vermelho-contra-os-alimentos-ultraprocessados/
- Renner, E. Documentário Muito Além do Peso. Brasil, 2012. https://youtu.be/8UGe5GiHCT4?si=PX8kttOXVXMNNfIghttps://youtu.be/h0_NrMvHMrA
- Gomes, D. R., Santos Neto, E. T. dos, Oliveira, D. S. de, & Salaroli, L. B.. Características associadas ao consumo de alimentos in natura ou minimamente processados e ultraprocessados por adolescentes em uma região metropolitana brasileira. Ciencia & Saude Coletiva, 28(2), 643–656. 2023. https://doi.org/10.1590/1413-81232023282.07942022
- Ministério da Saúde. Cinco fatos para entender o impacto do consumo de ultraprocessados. 2022, 28 de Abril. Disponível em https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me alimentar-melhor/noticias/2022/cinco-fatos-para-entender-o-impacto-do-consumo-de ultraprocessados
- Nupens/USP e a Cátedra Josué de Castro. Diálogo sobre Ultraprocessados: soluções para Sistemas Alimentares Saudáveis e Sustentáveis. 2021, 24 de junho. https://alimentacaosaudavel.org.br/wp-content/uploads/2021/07/Dia%CC%81logo-Ultraprocessados_PT.pdf
- Ministério da Saúde. Por que limitar o consumo de alimentos processados e evitar alimentos ultraprocessados?. 2022, 01 de Dezembro. https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-brasil/eu-quero-me-alimentar-melhor/noticias/2022/por-que-limitar-o-consumo-de-alimentos-processados-e-evitar-alimentos-ultraprocessados
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