Uma taça cheia de saúde: o vinho como fator de proteção cardiovascular

  • INTRODUÇÃO

As doenças cardiovasculares (DCVs) são um grupo de doenças que afetam o coração e os vasos sanguíneos e incluem e constituem a principal causa de morte no mundo e no Brasil, correspondendo a cerca de um terço do total de óbitos. A prevalência de DCVs, segundo o Estudo GBD (Global Burden of Disease) de 2019, foi de 6,1% da população em 2019, afetando principalmente o público masculino, essa estatística vem crescendo desde 1990 atribuída ao crescimento e envelhecimento da população (OLIVEIRA et al, 2022).

Os fatores de risco considerados modificáveis são responsáveis por 70% das mortes por DCV, estão atrelados a maus hábitos de estilo de vida, como dieta inadequada, obesidade, sedentarismo e tabagismo além dos fatores metabólicos como hipercolesterolemia, hipertensão arterial e diabetes mellitus (YUSUF et al, 2020). A alimentação está intimamente relacionada a DCVs e seus fatores de riscos, desempenhando papel crucial na saúde do coração seja para o aparecimento ou prevenção das doenças cardíacas. Neste grupo de doenças, o processo fisiológico cardiovascular é alterado, com presença de quadro inflamatório que está associado a alterações que resultam em rigidez arterial precoce,  gerando  disfunção endotelial e consequentemente as DCVs (CABRA et al, 2024).

 A literatura aponta que os alimentos  podem  influenciar negativamente nos níveis de pressão arterial, de triglicerídeos, da glicemia e da inflamação (MOTTA et al, 2023). Por outro lado, o efeito positivo de determinados tipos de alimentos sobre a saúde humana é indiscutível, existindo classes de alimentos com componentes bioativos que além de fornecerem a nutrição básica, promovem a saúde através de benefícios médicos e/ou de saúde com caráter preventivo, são os chamados alimentos funcionais, com uma gama de alimentos descritos nos últimos anos, como alguns grãos integrais, frutas, chocolates, peixes, oleaginosas, sementes (LIMA et al, 2020). 

Notadamente descrito como alimento funcional, o vinho é uma bebida histórica, tendo sido cultivado e apreciado por diversas culturas ao longo dos séculos, devido às suas qualidades únicas e aos benefícios que oferecem à saúde, descobertos ao longo do tempo. Por mais de dois milênios, o vinho foi usado com propósitos medicinais, desde os povos gregos. As substâncias que compõem o vinho são: açúcares, álcoois, ácidos orgânicos, compostos fenólicos, pigmentos, substâncias nitrogenadas, pectinas, gomas, mucilagens, compostos voláteis e aromáticos (ésteres, aldeídos e cetonas) e ainda vitaminas e sais (TÍMACO, 2012). 

Os benefícios observados particularmente em relação ao vinho tinto estão  associados  a  seu  elevado  conteúdo  de polifenóis e flavonoides. Esses compostos são encontrados nas uvas (Vitis  vinifera L.) e permanecem presentes no vinho durante o processo de fermentação. O resveratrol, composto químico natural que pertence à classe dos polifenóis, tornou-se mais conhecido pela sua concentração nas uvas e, consequentemente no vinho tinto, desempenha papel ao neutralizar os radicais livres, diminuindo o estresse oxidativo, contribuindo para a promoção da saúde (CABRA et al, 2024; (VACCARI, et al 2009). 

Dado a importância da contribuição do vinho para com as doenças cardiovasculares, o presente trabalho tem por objetivo discutir os efeitos benéficos da ingestão de vinho, sobretudo na função antioxidante.

Palavras-chave: vinho, doenças cardiovasculares, compostos fenólicos. 

  • DESENVOLVIMENTO 

2.1 Panorama das doenças cardiovasculares e alimentação

Dentro do campo da saúde pública, as doenças crônicas não-transmissíveis (DCNT), em que ocorre diferentes alterações no metabolismo, a citar a obesidade, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial, doenças coronarianas, hiperlipidemia são fortemente relacionadas a desbalanços que são refletidos na função cardíaca e progressão para as doenças cardiovasculares (DCVs), como a insuficiência cardíaca, doença coronariana, doença cerebrovascular, doença arterial periférica e várias outras desse grupo (CABRA et al, 2024).  

A fim de se evitar a existência, prevalência e mortalidade associadas a essas doenças, pesquisadores se dedicam a encontrar alternativas farmacêuticas ou não, sendo que o consumo alimentar se mostra com grande impacto e importância para o aparecimento e desaparecimento de condições patológicas. Quando a alimentação é baseada  no consumo de gordura saturada, gordura trans, sódio e carboidratos simples, além de um menor consumo de fibras, vitaminas e minerais, é relacionado que favorece o aparecimento de doenças e quadros inflamatórios (BARROSO, ARAÚJO, MENDONÇA, 2022). Surge nesse sentido, o estudo envolvendo alimentos e suas propriedades, como o vinho.

2.2 O vinho e o processo de produção

Os flavonóides, composto presente nas uvas e vinhos, são conhecidos por seus benefícios antioxidantes e anti-inflamatórios, que podem auxiliar na defesa do organismo contra doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. Enquanto, os polifenóis, outros componentes, apresentam uma variedade de efeitos benéficos para a saúde, incluindo a proteção contra danos oxidativos e a redução da inflamação. Essas moléculas conferem ao vinho o título de alimento funcional, contribuindo para seus potenciais benefícios à saúde quando consumidos com moderação. Para a obtenção da bebida, uma série de etapas a partir da colheita da uva deve acontecer, com etapas que vão desde a colheita e recebimento da fruta até o envasamento, conforme mostrado na figura 1.

Figura 1. Fluxograma para produção de vinho – vinificação (TÍMACO, 2012).

2.3 Atuação do vinho em processos antioxidantes

Por serem advindos da mesma fruta, todos os vinhos contém as características positivas de alimento funcional, porém, alguns tipos de forma mais concentrado que outros. Rosier et al. (2003) quantificaram o teor de resveratrol nos vinhos tintos e brancos, brasileiros, argentinos e chilenos. Os vinhos apresentaram uma média de 2,33 mg L-1 para tintos e 0,091 mg L-1 para os  brancos, respectivamente.

Para que os efeitos sejam benéficos, o consumo moderado deve prevalecer, uma vez que o consumo excessivo passa a ser fator de risco para doenças cardiovasculares e comprometimento com outros órgãos. Apesar  de  não  existir  consenso  sobre  a definição de “consumo moderado” de vinho, a Organização Mundial da Saúde (OMS), define como uma dose diária para mulheres e duas doses para homens, sendo a dose de 90 ml de vinho tinto ou 125ml para vinho branco (SOCESP, 2019).

A função antioxidante atribuída ao vinho é de veracidade de efeito, ao analisar que quando uma célula é exposta ao estresse oxidativo, produz radicais livres que exercem efeitos prejudiciais à saúde, e nas DCVs observa-se um desequilíbrio entre produção de oxidantes e defesas antioxidantes (NOVELLE et al, 2005).  O trabalho de VACCARI, et al (2009) complementa ao dizer que a capacidade antioxidante dos compostos fenólicos está diretamente ligada à sua estrutura química, a qual pode estabilizar os  radicais  livres,  inibindo  a  oxidação  do  LDL- colesterol  (lipoproteínas  de  baixa  densidade)  e inibindo o desenvolvimento de aterosclerose, um dos principais  fatores de risco para doenças cardiovasculares (DCV).

O estudo de Urquiaga et al. (2010) buscou analisar a influência do consumo diário de quantidades moderadas de vinho em duas dietas diferentes. Observou-se que o consumo moderado de vinho aumenta a concentração de polifenóis circulante no plasma e eleva a concentração de vitamina C presente no mesmo, o que aumenta a capacidade antioxidante deste, reduzindo danos ao DNA e às proteínas. 

Em um estudo randomizado, a ingestão de vinho tinto sem álcool (300ml/dia), por uma semana, resultou em aumento da capacidade antioxidante do plasma e maior atividade das enzimas que degradam radicais livres, ou seja, antioxidantes, como a glutationa redutase, catalase e superóxido dismutase (SOD) em indivíduos saudáveis (Noguer et al., 2012). 

2.4 O vinho aplicado a outras disfunções

Na revisão de literatura de Vaccari, et al (2009), o autor trouxe uma série de informações buscando relacionar o consumo de vinho com doenças encontrou trabalhos que relacionavam com o desenvolvimento de câncer, relatando que indivíduos que têm o hábito regular de ingerir vinho de forma moderada no momento das refeições têm 20% menos chance de desenvolver câncer de qualquer tipo; proteção essa atribuída aos efeitos dos polifenóis presentes na bebida. De forma semelhante ao momento de consumo e atribuição aos polifenóis, o autor também encontrou correlação com o diabetes, evidenciando que o vinho aumenta a sensibilidade das células à ação da insulina. Isso leva a um efeito positivo de aproveitamento  dos  açúcares  pelas células, evitando o acúmulo no sangue. Em relação ao quadro de comprometimento pulmonar causado pela doença pulmonar obstrutiva  crônica  (DPOC), enfatizou que o consumo moderado atenua as manifestações clínicas, atribuído ao resveratrol que  diminui a concentração de citocinas inflamatórias dos macrófagos presentes nos alvéolos pulmonares. 

  • CONCLUSÃO

Este trabalho evidenciou que existe uma forte correlação entre o teor de fenólicos e atividade antioxidante, uma vez que os vinhos possuem em sua composição essas substâncias benéficas à saúde, que tem por função neutralizar os radicais livres, diminuindo o estresse oxidativo e assim promovendo a saúde humana, inclusive na prevenção de doenças que são a maior causa de morte no mundo. Grandes avanços  têm  sido contemplados na ciência ao pesquisar sobre o consumo moderado de vinho, que pode inclusive favorecer a melhora da saúde humana em doenças que vêm se tornando cada vez mais prevalentes, como o diabetes e câncer.

 

  • REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARROSO, E.G.; ARAÚJO, C.W.; MENDONÇA, C.E.A. Os benefícios dos flavonóides do vinho tinto e do suco de uva tinto para a prevenção de doenças cardiovasculares: uma revisão de literatura. Revista Eletrônica Da Estácio Recife, v.8, n.1, 2022. Disponível em: https://reer.emnuvens.com.br/reer/article/view/670. Acesso em: 20 abr 2024.

CABRA, R.C. et al. Benefícios do resveratrol: uma revisão narrativa. Revista Científica da UNIFENAS, v.1, 2024. Disponível em: https://periodicos.uniftc.edu.br/index.php/dialogoseciencia/article/view/42#:~:text=Resumo%3A%20Introdu%C3%A7%C3%A3o%3A%20Doen%C3%A7as%20de%20origem,fisiol%C3%B3gico%20cardiovascular%2C%20influenciando%20na%20mortalidade. Acesso em: 20 abr 2024.

LIMA, I.B.S.O. et al. Visão da Inovação na prevenção de doenças cardiovasculares a partir da alimentação saudável. Braz. J. of Develop., v.6, n.10, p.80508-80525, 2020. Disponível em: https://ojs.brazilianjournals.com.br/ojs/index.php/BRJD/article/view/18612/14988. Acesso em: 20 abr 2024. 

MALTA, D.C.; et al. Cardiovascular disease mortality according to the brazilian information system on mortality and the global burden of disease study estimates in Brazil, 2000-2017. Arq Bras Cardiol., v.115, n.2, p.152-160, 2020. Disponível em: https://www.scielo.br/j/abc/a/mX3zDLy43CbWt6sjm6J6GDc/?lang=en#. Acesso em: 20 abr 2024.

MOTTA, A.C.S.V.; et al. Prevalence of ideal cardiovascular health in the Brazilian adult population – National Health Survey 2019. Epidemiol Serv Saúde, v.32, n.1, 2023. Disponível em: https://www.scielo.br/j/ress/a/pJMmm8qmwddQcT8Q9q3477K/. Acesso em: 20 abr 2024.

OLIVEIRA, G.M.M.; et al. Estatística Cardiovascular – Brasil 2021. Arq. Bras. Cardiol., v.118, n.1, p.115-373, 2022. Disponível em: https://abccardiol.org/article/estatistica-cardiovascular-brasil-2021/. Acesso em: 20 abr 2024.

NOGUER, M.A.; et al. Intake of alcohol-free red wine modulates antioxidant enzyme activities in a human intervention study. Pharmacological Research, v. 65, p.609- 614, 2012. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S1043661812000436. Acesso em: 20 abr 2024. 

NOVELLE, MG et al. Resveratrol supplementation: Where are we now and whereshould, Ageing Research Reviews. v.24, p.2–15, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25625901/. Acesso em: 20 abr 2024.

ROSIER,  J.P. et al. Teores de resveratrol em vinhos sul americanos. In: CONGRESSO BRASILEIRO DE VITICULTURA E ENOLOGIA, 10., 2003, Bento Gonçalves. Anais Eletrônicos…Bento Gonçalves, 2003. 

SOCESP. Consumo moderado de vinho e as doenças cardiovasculares – Mas, o que é consumo moderado?. 2019. Disponível em: https://socesp.org.br/noticias/nutricao/consumo-moderado-de-vinho-e-as-doencas-cardiovasculares-mas-o-que-e-consumo-moderado/. Acesso em: 20 abr 2024. 

TÍMACO, A.C.E. Impacto de diferentes tempos de maceração na qualidade físico-química e aceitação de vinhos ‘Syrah’ produzidos no Vale do São Francisco. São Paulo, 2012. Trabalho de Conclusão de Curso – Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiróz – Universidade São Paulo. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/74891/1/TCC-Final-2012-dez-03.pdf. Acesso em: 20 abr 2024.

URQUIAGA, I.et al. Mediterranean  diet and red wine protect against oxidative damage in young volunteers. Atherosclerosis, v.211, n.2, p.694–699, 2010. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/20451910/. Acesso em: 20 abr 2024. 

VACCARI, N. et al. Compostos fenólicos em vinhos e seus efeitos antioxidantes na prevenção de doenças. Revista de ciências agroveterinárias, v.8, n.1, p.71-83, 2009. Disponível em: https://www.revistas.udesc.br/index.php/agroveterinaria/article/view/5316/3522. Acesso em: 20 abr 2024. 

YUSUF, S., et al. Modifiable risk factors, cardiovascular disease, and mortality in 155 722 individuals from 21 high-income, middle-income, and low-income countries (PURE): a prospective cohort study. Lancet. v. 395, p.795-808, 2020. Disponível em: https://www.thelancet.com/journals/lancet/article/PIIS0140-6736(19)32008-2/abstract. Acesso em: 20 abr 2024.   

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