MICROPLÁSTICOS COMO UM RISCO NA SUSTENTABILIDADE DA CADEIA ALIMENTAR
- Introdução
Nos últimos anos, a crescente preocupação com a contaminação por microplásticos nos oceanos tem despertado a atenção da comunidade científica e do público em geral. Esses pequenos fragmentos de plástico, provenientes de uma variedade de fontes, estão se acumulando nos ecossistemas marinhos em todo o mundo, representando uma ameaça significativa para a vida marinha e para a sustentabilidade da cadeia alimentar aquática. A compreensão desses impactos é fundamental para orientar políticas e práticas que visem proteger os ecossistemas marinhos e garantir a saúde dos recursos pesqueiros, promovendo assim um futuro sustentável para os oceanos e para as comunidades que deles dependem.
Palavras chaves: peixes, sustentabilidade, cadeia alimentar.
- O mercado de pesca
Com o avanço e modernização da sociedade, há uma busca e idealização de comunidades mais saudáveis. Atualmente, observa-se uma conscientização crescente em relação a políticas sustentáveis que visam melhorar a qualidade de vida da população e promover o envelhecimento ativo e saudável (VAN BUSSEL et al., 2022). A pesquisa em alimentos funcionais, um campo em crescimento que explora componentes ativos naturais para oferecer benefícios à saúde além da nutrição essencial, está progredindo significativamente na prevenção de doenças e na promoção do bem-estar. Esses alimentos são ricos em nutrientes essenciais para a sobrevivência humana, contribuindo para benefícios à saúde física e mental, como mencionado por (KORAILA, 2021). Desta forma, alimentos ricos em componentes mais saudáveis têm sido muito mais explorados, um deles, sendo um alimento milenar, é o peixe e os demais frutos do mar. A figura 1, mostra a composição de espécies mais consumidas de peixe e seu percentual de proteínas e lipídios.
Figura 1: Composição nutricional de proteínas e lipídios das espécies Xiphias gladius, Prionace glauca, and Isurus oxyrinchus expressas em porcentagem (%) ( CHAMORRO et al., 2023).
O consumo global de peixes e mariscos contribui com cerca de 6% de todas as proteínas e 17% das proteínas animais consumidas pelos seres humanos. Além disso, aproximadamente 5% do total de proteínas consumidas pelos humanos são provenientes indiretamente de animais que se alimentam de farinha de peixe ( ANDREW et al., 2001). Reconhece-se cada vez mais o papel crucial dos alimentos aquáticos na segurança alimentar e nutricional, destacando a necessidade urgente de gerenciar e proteger este recurso natural da poluição.
A expansão das populações e dos mercados, juntamente com a melhoria das tecnologias de pesca, levou a um aumento enormemente na gama de espécies de marisco exploráveis e exploradas. A biodiversidade fornece “matérias-primas” para a cadeia alimentar e para a produção de frutos do mar, e também influencia a capacidade dos ecossistemas de realizar estes e outros serviços (ANDREW et al., 2021).
Os peixes e crustáceos marinhos contribuem imensamente para a nutrição humana. A colheita de peixes marinhos para satisfazer a procura global tornou-se um desafio devido à redução das áreas de pesca e aos riscos para a segurança alimentar associados ao aumento das contaminações pré e pós-colheita. A integridade da cadeia alimentar exige o reforço da posição dos consumidores finais no sistema alimentar. Moldar esta agenda centrada no consumidor leva a uma busca grande em que os intervenientes na cadeia alimentar precisam de remodelar as suas normas de produção (SAMARAJEEWA, 2023).
O peixe é um componente biológico essencial dos ecossistemas de água doce com grande importância nutricional e econômica em todo o mundo. Os países em desenvolvimento são responsáveis por cerca de 94% de toda a pesca em água doce, fornecendo alimentos e meios de subsistência a milhões das pessoas mais pobres do mundo, ao mesmo tempo que contribuem para a economia geral através da exportação, do turismo e da recreação (FAO, 2007).
- O que são os microplásticos?
Os plásticos são amplamente utilizados em todo o mundo devido ao fácil processamento, resistência à água e confiabilidade.. Microplásticos são geralmente definidos como partículas de polímero sintético com diâmetro <5 mm (COLE et al., 2011). Eles podem ter origem em fontes primárias ou secundárias. As fontes primárias incluem têxteis, medicamentos e produtos de cuidados pessoais, como esfoliantes faciais e corporais.
Figura 2. Introdução de microplásticos de origem primária nos oceanos; e dos microplásticos de origem secundária, sofrendo o processo da degradação de macroplástico em microplástico (IOUSP, 2019).
Os microplásticos podem afetar negativamente os organismos aquáticos de diferentes níveis tróficos (XU et al., 2020) Aproximadamente 80% dos resíduos plásticos marinhos têm origem em fontes terrestres e entram nos oceanos através dos rios (WANG et al., 2024). Estes podem entrar na cadeia alimentar humana por inalação ou por ingestão, particularmente de mariscos e crustáceos.
- Impacto dos microplásticos na cadeia alimentar.
Os microplásticos na água podem ser simplesmente consumidos por peixes. Os pesquisadores descreveram a incidência de MPs em peixes (SU et al., 2016). Eles depositam-se nos peixes e têm uma ampla gama de impactos negativos, ou seja, diminuição da atividade alimentar, crescimento impedido, interrupção de energia. De acordo com Singh et al. (2022), como na figura 3. Partículas de microplásticos são facilmente ingeridas pelos peixes de maneiras não intencionais devido ao seu pequeno tamanho e semelhança com alimentos naturais, mas também intencionalmente através da alimentação na coluna de água ou (WHARING, 2018)
Os microplásticos prejudicam o metabolismo dos peixes, diminuindo a quantidade de energia necessária para o crescimento e atrasando a ovulação (Wright et al., 2013). Esses peixes podem ter uma vida mais curta e atrapalharem a atividade de pesca, como também podem ser consumidos por humanos, levando microplásticos que podem causar uma séria de doenças que ainda estão sendo estudadas conforme a figura 3.
Figura 3:Detecção de microplásticos em humanos e riscos associados à ingestão. (KHAN et al., 2023).
- Conclusão
Em síntese, a presença crescente de microplásticos nos oceanos coloca em risco a sustentabilidade da cadeia alimentar marinha, ameaçando a saúde dos peixes e, por extensão, a segurança alimentar humana. Esta preocupante realidade ressalta a urgência de implementar medidas abrangentes para reduzir a poluição por microplásticos, protegendo assim os ecossistemas marinhos e garantindo a disponibilidade de alimentos saudáveis e seguros para todos. É fundamental um esforço conjunto entre governos, indústrias e a sociedade civil para enfrentar esse desafio e preservar os recursos marinhos para o bem-estar de todos devido ao impacto desses alimentos na sociedade.
- Referências bibliográficas
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