Introdução 

Palavras-Chave: Alimentos Orgânicos; Consumo; Comportamento; 

O tema da alimentação é repleto de aspectos e parâmetros que condicionam essa questão essencial. A alimentação, reconhecida como um direito universal, é assegurada por leis e pelos princípios constitucionais. A Emenda Constitucional nº 64, ao incluir a alimentação entre os direitos sociais, consolidou esse princípio no artigo 6º da Constituição Federal de 1988. No entanto, nos últimos anos, o estilo de vida agitado da sociedade contemporânea, impulsionado pela era moderna e pelas inovações tecnológicas, têm exercido uma influência considerável nos padrões alimentares dos indivíduos. As exigências do ambiente profissional em constante transformação acabam por influenciar e moldar esses padrões. Nesse contexto, as circunstâncias individuais de cada pessoa também implicam na variedade de situações que afetam seus hábitos alimentares. 

Ao vincular esse contexto aos alimentos orgânicos e à sua crescente relevância atualmente, podemos observar que essa tendência não só reflete uma preocupação com a saúde, mas também com a sustentabilidade e com a preservação ambiental. O crescente interesse pelo consumo de alimentos com maior valor nutritivo e menor teor de contaminantes, além da busca por hábitos de vida mais saudáveis, têm contribuído para impulsionar o consumo de alimentos orgânicos, cujo mercado cresceu em torno de 20% ao ano, nos últimos anos (HOEFKENS et al., 2009; SCIALABBA, 2005; FAO, 2011). De acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2012), no Brasil, são cerca de 15.000 propriedades rurais que trabalham com a produção orgânica. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA, 2012), há no Brasil cerca de 90 mil produtores de alimentos orgânicos ou agroecológicos, sendo que 85% deles são familiares. 

Desse modo, a expressiva expansão do consumo de alimentos orgânicos no Brasil tem estimulado a demanda por estudos sobre o comportamento dos consumidores, visando à sua compreensão, de forma a direcionar o processo de comercialização e aumentar o consumo (Pimenta, 2008). O conhecimento do perfil dos consumidores de alimentos orgânicos e dos fatores que motivam ou limitam o seu consumo mostra-se vital para promover a expansão do mercado, de modo a adequá-lo às expectativas e necessidades dos consumidores em termos de produtos e serviços. Por outro lado, tais informações contribuem para definir estratégias e demandas de mercado, além de direcionar o processo de propaganda e comunicação, o qual poderia, por exemplo, ampliar informações mais relevantes para os potenciais consumidores, como a disponibilidade dos produtos e os benefícios da oferta, bem como as maneiras e os locais onde obter os produtos (Vilas Boas et al., 2006). Além disso, os dados sobre o perfil dos consumidores e projeções de mercado também contribuem para orientar políticas públicas governamentais, visando impulsionar o crescimento do mercado de alimentos orgânicos e, consequentemente, incentivar o desenvolvimento da agricultura familiar no país. Nessa perspectiva, é fundamental compreender os padrões de comportamento e os hábitos alimentares da população em relação ao consumo de produtos orgânicos. 

Desenvolvimento 

O comportamento de compra de consumidores tem sido foco de muitos estudos, principalmente da área de marketing. São inúmeras as influências que exercem sobre o consumidor durante o processo de compra. Fazem parte das influências socioculturais ou ambientais a classe social, a família, a cultura, os grupos de referência e os formadores de opinião. As influências psicológicas ou individuais referem-se à identidade sociodemográfica (idade, gênero, nível de instrução, religião, raça, profissão, renda), personalidade, estilo de vida, aprendizagem e as percepções de cada indivíduo (Engel; Blackweell; Miniard, 2000). Tais influências impactam diretamente no processo de compra do consumidor, que compreende as seguintes etapas: reconhecimento da necessidade, busca de informações, avaliação de compra, compra e consumo, avaliação pós compra e, por fim, descarte (Engel; Blackweell; Miniard, 2000). 

Conforme demonstrado por (Andrade e Bertoldi, 2012), a partir da análises de atitudes e motivações dos consumidores em relação aos alimentos orgânicos na cidade de Belo Horizonte – MG, foi possível constatar que existem variáveis relacionadas ao acesso desses alimentos. O estudo consistiu em uma pesquisa descritiva direta e estruturada realizada no período de julho a dezembro de 2011, em supermercados e feiras que comercializam alimentos orgânicos. As entrevistas foram conduzidas por meio de questionários semi estruturados e aplicados a consumidores de frutas e hortaliças orgânicas, abrangendo aproximadamente 400 participantes. A análise contemplou diversos aspectos, incluindo o perfil sociodemográfico dos consumidores, a frequência de consumo, as principais razões para a escolha desses alimentos e os fatores que influenciam o poder de compra e a tomada de decisão. 

O preço elevado, a baixa qualidade e a oferta irregular foram as principais dificuldades encontradas pelos consumidores para a compra destes alimentos, conforme é demonstrado graficamente na Figura 1. Estudos como (Ankomah e Yiridoe, 2006; Diaz, 2011) apontam o alto custo como uma das principais limitações para o consumo destes produtos. 

Figura 1 – Distribuição de frequência relativa das três maiores limitações para o consumo de frutas e hortaliças orgânicas 

Fonte: (Andrade e Bertoldi 2012) 

A partir desta análise, torna-se evidente que o acesso aos alimentos orgânicos ainda está amplamente condicionado por fatores como o perfil sociodemográfico dos consumidores, que engloba aspectos como nível de instrução e renda familiar. Em certas regiões, os alimentos orgânicos podem ter maior valor agregado, o que pode resultar em uma aquisição menor em comparação com os alimentos convencionais. Portanto, pessoas com maior poder aquisitivo e níveis mais elevados de educação podem dispor de recursos para acessar mercados e feiras especializadas que oferecem uma variedade mais ampla de produtos orgânicos. 

Por outro lado, ainda conforme Andrade e Bertoldi (2012), a maioria dos consumidores (98,8%) afirma que não houve um evento decisivo que os tenha levado a iniciar o consumo de alimentos orgânicos. Desse modo, os resultados sugerem que, na maioria das vezes, o consumo de alimentos orgânicos não é iniciado em razão de uma necessidade. Em geral, o consumo destes alimentos é motivado, principalmente, pela busca de um estilo de vida mais saudável. 

Embora a maioria dos entrevistados tenha demonstrado um interesse variando de moderado (73,3%) a elevado (15,0%) no consumo de alimentos orgânicos, a oferta desses produtos se concentra principalmente em frutas e hortaliças (83,5%), especialmente em alimentos como banana e alface. A maior parte dos consumidores (81,5%) consome frutas e hortaliças orgânicas semanalmente e considera essa frequência satisfatória. No entanto, outros (16,5%) expressaram o desejo de aumentar sua ingestão, identificando o preço elevado (60,6%) e a qualidade inferior (25,8%) como principais obstáculos. Essas questões podem estar relacionadas a diversos aspectos, como estilo de vida, hábitos e padrões alimentares. 

Outro fator que impactou no consumo de alimentos orgânicos foi a pandemia do COVID-19. Segundo a pesquisa de Pasqualotto e Sampaio (2021) na qual foram investigadas as transformações no comportamento de compra e consumo de alimentos orgânicos, foi possível evidenciar um aumento significativo do interesse da população por produtos orgânicos, impulsionado pelas mudanças no estilo de vida e pela crescente preocupação com a saúde. A pandemia motivou muitas pessoas a reavaliar seus hábitos alimentares, priorizando opções mais nutritivas a fim de fortalecer o sistema imunológico. Nesse contexto, os alimentos orgânicos surgiram como uma alternativa atraente para aqueles que buscam melhorar sua alimentação. 

Este estudo caracterizou-se como uma investigação exploratória de natureza qualitativa, considerando os consumidores de alimentos orgânicos do Estado do Rio Grande do Sul, com um conjunto amostral de 12 participantes. Os resultados obtidos revelaram-se significativos, pois refletiram as percepções e opiniões dos consumidores, evidenciando as mudanças ocorridas no processo de compra e aquisição de produtos durante o período de pandemia. Com as restrições impostas pelo período de lockdown, houve um impacto significativo na forma como os respondentes desta pesquisa compram e consomem alimentos orgânicos. O período de isolamento social levou as pessoas a permanecerem mais tempo em suas residências, o que resultou em um aumento no preparo de refeições caseiras, conforme relatado pelos entrevistados. A participante número 11, por exemplo, mencionou que sua proporção de refeições caseiras aumentou de 50% para 98% durante a pandemia. Além disso, a entrevistada 7 relatou alteração do hábito de fazer refeições fora de casa, passando a preparar todas as suas refeições no próprio lar. Esse aumento no preparo de refeições em domicílio resultou em um aumento nos gastos com mantimentos, bem como no consumo de produtos orgânicos, como indicado nos dados do Organis (2020). 

Os resultados da análise deste estudo revelaram uma mudança significativa no comportamento alimentar das pessoas durante a pandemia, com uma maior preocupação em consumir alimentos mais saudáveis e nutritivos. No entanto, essa mudança foi acompanhada por uma transformação na forma de adquirir esses alimentos, com uma preferência pelo sistema de entrega e compras online em detrimento das idas a feiras e supermercados físicos, devido ao risco de contágio. Nesse contexto, tornou-se essencial explorar a integração entre a produção orgânica e a tecnologia como meio de expandir seu alcance. Isso porque a pandemia provocou mudanças na cadeia de distribuição dos produtos orgânicos, exigindo que os produtores e comerciantes se adaptassem às novas condições para atender às necessidades dos consumidores. 

Considerações finais 

Com base nos estudos analisados, foi possível destacar um aumento notável na procura por alimentos orgânicos, o que pode refletir uma conscientização crescente sobre a importância da alimentação saudável. No entanto, a não generalização do consumo desses alimentos ressalta a necessidade de debater acerca dos desafios que ainda persistem, e implicam na falta de acesso ou aquisição aos alimentos de cultivo orgânico. 

A influência de fatores socioeconômicos, padrões alimentares enraizados e a carência de educação nutricional são questões fundamentais a serem abordadas para promover o interesse pelos alimentos orgânicos e seus benefícios. Portanto, é crucial investir em programas educacionais e políticas públicas que facilitem o acesso, incentivem e garantam o consumo desses alimentos, promovendo assim uma alimentação mais saudável e sustentável. 

Além disso, é importante aumentar a disponibilidade de alimentos orgânicos em supermercados e lojas especializadas em produtos naturais, através de parcerias com agricultores locais e redes de distribuição. Promover alternativas de vendas diretas, como feiras livres e mercados agrícolas, também é uma estratégia eficaz para conectar diretamente os agricultores aos consumidores, tornando os produtos mais acessíveis e proporcionando uma ligação mais próxima com a origem dos alimentos. Essas medidas têm o potencial de ampliar o acesso aos alimentos orgânicos para toda a população. 

Referências 

  1. Intenção de Compra e Consumo de Alimentos Orgânicos | Revista Gestão Organizacional. bell.unochapeco.edu.br, 30 mar. 2015. 
  2. Pesquisa revela que 31% dos brasileiros consomem orgânicos – Organis. Disponível em: <https://organis.org.br/imprensa/pesquisa-revela-que-31-dos-brasileiros-consomem-organic os/>. Acesso em: 30 abr. 2024. 
  3. GUIVANT, J. S. Os supermercados na oferta de alimentos orgânicos: apelando ao estilo de vida ego-trip. Ambiente e Sociedade, Campinas, v. 6, n. 2, p. 63-81, 2003. 
  4. GLOBO RURAL. Venda de orgânicos cresce na pandemia com produtores apostando em novas formas de negociação. Disponível em: https://g1.globo.com/economia/agronegocios/ globo-rural/noticia/2020/05/17/venda-de-organicos-cresce-na-pandemia-com-produtoresapo st 
  5. PIMENTA, M. L. Comportamento do Consumidor de Alimentos Orgânicos na Cidade de Uberlândia: um Estudo com Base na Cadeia de Meios e Fins. 2008. 125 f. Dissertação (Mestrado em Administração)-Universidade Federal de Uberlândia, Uberlândia, 2008.ando-em-novas-formas-de-negociacao.ghtml. Acesso em: 30abril. 2024. 
  6. NEVES, F. M.; CASTRO, T. L. (Orgs.). Marketing e estratégia em agronegócio e alimentos. São Paulo: Atlas, 2003. 
  7. KRISCHKE, P. J.; TOMIELLO, N. O comportamento de compra dos consumidores de alimentos orgânicos: um estudo exploratório. Cadernos de Pesquisa Interdisciplinar de Ciências Humanas, Florianópolis, v. 10, n. 96, p. 27-43, 2009 
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